Nanquim – Técnicas de Ilustração

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Origem do Nanquim

O Nanquim é uma técnica antiga, de origem chinesa, da região da cidade de Nanjing, capital de Jiangsu. Também foi muito utilizado na Índia, ganhando mais destaque a partir de seu uso no Japão.

Geralmente era aplicado em papel, pergaminho ou telas de seda, utilizando-se pincéis e canetas de bambu (originando artes tradicionais como a Caligrafia e o Sumiê). Na Europa, ganhou destaque com o uso do bico-de-pena, que em sua forma inicial era composta de uma pena de corvo cuja extremidade era apontada, evoluindo depois para penas de aço e canetas recarregáveis.

Alguns modelos de pena de bambu e pena de corvo.
Alguns modelos de pena de bambu e pena de corvo.
Imagem: megadestec.com.br

A tinta nanquim era produzida inicialmente por um líquido preto liberado pelos moluscos marinhos, evoluindo depois para um líquido extraído de uma pasta de pigmentos finos de carbono, depositado pela queima de óleo ou gás. Hoje em dia, as tintas são fabricadas a partir de uma mistura entre cânfora, gelatina e pó de sapato (fuligem ou negro de fumo).

 

Características da tinta

A relação do nanquim com a ilustração é antiga, pois é uma tinta que possibilita criar texturas lineares e um aspecto detalhista nas obras. Possui uma cor saturada e densa, dando nitidez, clareza e uma certa opacidade ao desenho.

É preciso muito cuidado com seu manuseio, pois seu alto poder de cobertura torna sua aplicação irreversível após a secagem. Adicionando água é possível conseguir diferentes tons de cinza, criando efeitos aquareláveis, luz, sombra e volume.

O nanquim é facilmente encontrado em lojas especializadas, em formatos sólido e líquido. Existem também vários tipos de canetas, sendo as principais bico de pena, caneta técnica, caneta descartável e também pincéis.

Modelo de caneta com reservatório recarregável e tinta Nanquim.
Modelo de caneta com reservatório recarregável e um recipiente de tinta nanquim.
Imagens: trident.com.br

Principais Marcas e Tipos de Pincéis, Canetas, Penas e Tintas

Pincéis:

  • Winsor e Newton: Série 7 (pelo de marta Kolinsky redondo); Série 608 (pelo de marta Kolinsky Chato);
  • Tigre: Artística 308 ou Pinctore 312 (pelo de marta redondo), Pictore 311 ou Artítsica 321 (pelo de marta chato), Pictore 148 ou Artíistica 146 (imitação marta chato);
  • Pentel: Aquash Brush (Pincel com reservatório de água – Ponta Fina);
  • Sakura: Water Brush nº 06 (Pincel com reservatório de água – Ponta Fina).
Modelos de pincel Winsor e Newton Série 7
Modelos de pincéis Winsor e Newton Série 7
Imagem: winsornewton.com
Alguns modelos de pincel com reservatório de água.
Alguns modelos de pincéis com reservatório de água.
Imagens: sakuraofamerica.com

Os tipos redondos e chatos de marta, imitação de marta, sintéticos ou filbert de orelha de boi são os mais recomendados. Os chatos são ideais para grandes áreas, degradê e texturas.

Curiosidade: Marta é um mamífero do gênero Martes, cujo pelo é usado para confeccionar pincéis por causa da durabilidade e porque ficam bem unidos uns aos outros, resultando num traço bem mais elaborado. Esse animal está em extinção, por isso recomendo que você utilize os filamentos sintéticos que apresentam um resultado satisfatório.

Penas de Metal

  • Koh-I-Noor;
  • IMSA;
  • SpeedBall;
  • Keramik.
Alguns modelos e tipos de penas de metal.
Alguns modelos e tipos de penas de metal.
Imagem: zadoque.com

Canetas

  • Rotring Rapidográfica: Mars Staedtler;
  • Trident;
  • Mitsubishi Pencil : Uni Pin Fine Line (descartável);
  • Sakura: Pigma Micron (descartável);
  • Copic Multiliner (descartável);
  • Stabilo (descartável);
  • Faber Castell Pitt (Descartável).
Alguns modelos Canetas nanquim descartáveis.
Alguns modelos de canetas nanquim descartáveis.
Imagens: uniball.com.br e miwashoji.lwsite.com.br

Tintas

  • Acrilex;
  • Rotring-Pelikan;
  • Trident;
  • Indian Ink;
  • Corfix;
  • Nankim Kins Ink;
  • Koh-I-Noor;
  • Pelikan;
  • Staedtler.
Alguns modelos de tinta nanquim.
Alguns modelos de tinta nanquim.
Imagem: zadoque.com

 

O papel mais indicado

Por ser uma tinta muito fluida, tende a se infiltrar facilmente na polpa do papel, sendo então necessário usar um material de boa espessura e, consequentemente, boa absorção (principalmente para técnicas utilizando água). A escolha correta do papel é importante também para que a nitidez da linha não seja prejudicada.

Dentre alguns fabricantes estão:

  • Schoeller 6G (Alemão);
  • Fabriano 6l (Italiano);
  • Arjomari-Canson Montval (Francês); e
  • Canson (Nacional).

Pode-se utilizar também os papéis orientais de fibras de arroz.

 

Algumas dicas de como usar nanquim

Para utilizar o nanquim é necessário uma certa habilidade, que é obtida através de muita prática. Para facilitar o aprendizado, sugiro atentar as seguintes dicas, tanto antes quanto durante a realização dos trabalhos:

    • Para desenhos com bico de pena, é mais interessante trabalhar com uma certa inclinação na prancheta ou mesa. Um desenho de pequenas dimensões exigirá uma inclinação menor, pois precisa de mais proximidade. Já para desenhos grandes, com traços soltos e espontâneos, pode-se usar uma inclinação maior.
    • Quanto mais fino o traço, mais a caneta deverá ser colocada em posição vertical. Quanto mais grossas as linhas, mais horizontal ou inclinada.
    • É importante que a caneta consiga fazer o percurso de pintura com fluidez, tomando cuidado com respingos. Você pode tentar exercitar isso antes de iniciar a obra de fato.
    • Tenha em mãos sempre algum pano ou material para limpar a pena, pois as vezes acumula na ponta fibras de papel e outros excessos decorrentes da “raspagem” constante na superfície.
Detergente para limpeza e recuperação de penas nanquim entupidas.
Detergente para limpeza e recuperação de penas nanquim entupidas.
Imagem: trident.com.br
  • Caso use tinteiro, lembrar de escorrer o excesso de tinta antes de retornar a caneta a área de trabalho.
  • Cuidado para não deixar a tinta dentro do reservatório das canetas sem usar por muitos dias. Com a total secagem a dificuldade de limpeza é maior, podendo inclusive danificar seu material permanentemente.

Técnicas e estilos de desenho utilizando nanquim

Como já foi dito anteriormente, o nanquim oferece uma série de características que o torna um dos mais interessantes métodos de ilustração e pintura. Essas são as principais técnicas/estilos que podemos utilizar:

Estilo linear

Sua característica principal é o uso de traços finos e lineares, desenhando desde formas simples a efeitos de luzes e sombras. Está subdivido em 3 formas de representação:

  • Linear Contínuo: Linhas muito finas, com traçado e grossura regular, feita de forma contínua, sem interrupções. É importante já ter definido a ideia do que se deseja desenhar (um rascunho leve, por exemplo), para ajudar no controle das linhas longas. As curvas devem ser feitas de uma só vez e a pena deve estar carregada com pouca tinta.
Exemplo de estilo linear contínuo.
Exemplo de estilo linear contínuo.
por Emerson Designer
  • Linear Espontâneo: como o próprio nome já diz, nesse modo o traço pode ser feito de maneira mais espontânea, sem a preocupação com linhas perfeitas e controladas. A ideia é desenhar apenas com linhas, sem sombreados, reforçando as partes mais importantes. Não é necessário nenhum estudo prévio ou rascunho, porém exige habilidade e segurança para conseguir um bom resultado.
Exemplo da Técnica Naquim Linear Espontâneo.
Exemplo da Técnica Nanquim Linear Espontâneo.
por Emerson Designer
  • Linear a Pincel: a principal característica deste estilo é a presença de traços grossos e finos. É possível conseguir tons de cinza, utilizando o pincel quase seco. Geralmente não se tem rascunho ou croqui, ou seja, é pintado diretamente com o pincel (traços mais livres).
Exemplo de Técnica Linear a Pincel
Exemplo de Técnica Linear a Pincel
Releitura da obra “O enterro na rede”, de Portinari. Por Emerson Designer

Estilo Sombreado

  • Sombreado com traços: Imagem feita com uma série de traços, finos e paralelos, que passam uma ideia tonal, geralmente utilizado para representar uma área sombreada do desenho. É importante manter uma direção lógica do traçado: vertical, horizontal, diagonal, curvo e/ou ziguezagues.
Exemplo Técnica de Sombreado com Traços.
Exemplo Técnica de Sombreado com Traços.
Releitura da obra “O café”, de Portinari. Por Emerson Designer
  • Sombreado com traços e manchas: Representado com manchas realizadas com pincel, com volume e movimento. Pode ser utilizado pequenos traços feitos a pena. É recomendado fazer um estudo ou croqui a lápis antes
Exemplo de Técnica Sombreado com Traços e Manchas
Exemplo de Técnica Sombreado com Traços e Manchas.
por Emerson Designer

Técnica Hachurada

A hachura consiste em criar imagens utilizando linhas entrecruzadas sobrepostas, seguindo padrões de direções. Geralmente são usadas em linhas retas (verticais, horizontais e inclinadas), curvas (indicando melhor o sentido da curvatura) e linhas rabiscadas (feitas em todas as direções). É interessante treinar bem essa técnica, utilizando diferentes penas e observando os efeitos.

Exemplo da Técnica Hachura.
Exemplo da Técnica Hachura.
Releitura da obra “O menino morto”, de Portinari. Por Emerson Designer

Técnica Pontilhada

É uma técnica que exige paciência e boa coordenação. O ideal é usar uma pena fina (0.1 ou 0.2) que produz um pontilhado delicado e sutil. Para “escurecer” áreas sombreadas ou escuras do desenho é recomendado utilizar pontos bem próximos.

Exemplo da Técnica Pontilhada.
Exemplo da Técnica Pontilhada. por Emerson Designer

Importante: sempre manter o espaçamento regular entre os pontos e tomar cuidado para não fazer pequenos riscos ao invés de pontos (muito causado por impaciência).

Técnica Scratchboard

É um método muito parecido com a gravura em metal, porém não é uma matriz de onde podem tirar cópias. Para fazer esta técnica, você precisa de um papel bem liso pintado completamente por giz de cera, na cor que desejar para o desenho. Depois, pinte uma camada de nanquim preto puro por cima da camada do giz, até esconder completamente as cores da cera (tudo deve ficar completamente preto). Deixe secar.

Após a completa secagem, você deve iniciar o desenho raspando a camada de nanquim com qualquer ferramenta pontiaguda, em um processo similar as essas “raspadinhas” de prêmios instantâneos. Ao raspar, você perceberá que a camada do giz vai sendo revelada nos locais do grafismo, criando um efeito visual muito interessante e colorido.

Exemplo da Técnica Scratchboard.
Exemplo da Técnica Scratchboard. 
Releitura da obra “Mulher chorando”, de Portinari. Por Emerson Designer

Nessa técnica não é possível fazer rascunho inicial no  papel que será utilizado, sendo necessário tomar muito cuidado na hora de planejar a arte. Apesar disso, é possível “corrigir” possíveis falhas durante o grafismo, pintando a região comprometida com o nanquim e raspando outra vez.

Técnica Aguada

Esse método é associado ao Sumiê ou à aquarela. Para se obter as variações é necessário utilizar diferentes tipos de pincel e papel, assim como a quantidade de água na aplicação.

A diferença entre a aguada de aquarela está no tempo de secagem e a intensidade dos pigmentos (nanquim seca mais rápido e os pigmentos são mais fortes).

Para ter melhor resultado, recomenda-se trabalhar com pelo menos 4 recipientes:

  • um para armazenar um pouco de tinta;
  • outro para diluir;
  • outro pra enxaguar a primeira vez (quando necessário); e
  • outro para enxaguar uma segunda vez (quando necessário).
Exemplo da Técnica Aguada.
Exemplo da Técnica Aguada.
Releitura da obra “Trabalhadores brasileiros: o algodão.”, de Portinari. Por Emerson Designer

Dica: Para criar manchas ou pinceladas com bordas definidas, utilize o papel seco. Para obter efeitos de degradê, pinte sobre o papel molhado, pois isso espalhará a tinta misturando-a com as áreas vizinhas.

Técnica Brushing (Escovar)

Essa técnica consiste em esfregar um pincel com pouca quantidade de tinta em um papel, criando um efeito esfumado. Dê preferência a pincéis velhos e de pelo duro, pois com o uso se desgastará em pouco tempo. Também é possível fazer teste com escovas de dentes ou similares. É um método que exige controle e treino, pois é difícil regular o tom e quantidade de tinta.

Exemplo da Técnica Brushing
Exemplo da Técnica Brushing: Riqueza de Texturas.
Releitura da obra “São Francisco”, de Portinari. Por Emerson Designer

Ufa!

Viu quanta coisa dá pra fazer com o Nanquim?

Acredito que com essas dicas e bastante treino, você poderá obter excelentes resultados. Você não precisa ficar preso a uma só técnica, experimente misturá-las e veja as inúmeras possibilidades.

Uma última dica é fazer suas próprias texturas, digitalizar e utilizar em seus trabalhos de criação.

Basta agora escolher os materiais e praticar.

Bons treinos!

 

Referências:

http://ensaiododesenho.blogspot.com.br/
http://nanquim.com.br/
http://www.mateuscena.com.br/
https://estudionanquim.wordpress.com/
http://zadoque.com/
pt.wikipedia.org/
Apostila de Técnica de Representação Gráfica 1-A (UFBA). 2005. Dias, Carla.

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